Rio de Janeiro, 2025
184 páginas
Programação visual: Heliana Soneghet Pacheco
Fotos: Fabio Alves Corrêa e Fernando Garcia
Gráfica: Reproarte
Dando sequência à sua produção poética, Jacinto Fabio Corrêa lançou o 16º livro, Leblon, 1965, que traz memórias infantis relatadas em verso e prosa. O lançamento aconteceu no dia 3 de outubro, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, em Ipanema/RJ.
O livro apresenta um recorte na infância do autor, retratando o período dos seus 5 aos 9 anos, quando morou no bairro carioca que dá título ao livro, com passagens, afetos e desafetos familiares, bem como impressões sobre o universo de uma década marcada por revoluções culturais e ainda fortes preconceitos: “Para um menino gay, foi uma infância repleta de desafios mas também recheada de criatividade”.
Dividido em sete partes, Leblon, 1965 é um corajoso depoimento do autor, em que os poemas e as prosas poéticas retratam a abusiva relação com a mãe, o suporte amoroso do pai, e também a timidez de um menino, o apego aos heróis da TV, o impacto da Jovem Guarda, episódios escolares e a chegada do homem à lua. “Talvez tenha sido, até aqui, o livro mais difícil de ser escrito, já que às vezes me pegava sendo novamente o garoto a escrever seus sentimentos, outras o adulto a comentar o que foi vivido”.
Leblon, 1965 é mais uma produção independente do autor e mais uma vez conta com design de Heliana Soneghet Pacheco, com quem o poeta trabalha desde seu livro de estreia, Entre dois invernos (1989). “O livro passou por diversas versões visuais até encontrarmos o desenho ideal, para marcar bem a dualidade das linguagens infantil e adulta da obra”, comenta a designer.
Nas noites em que o sono não vinha era eu o advogado de toda a família negociando o curto prazo com os fantasmas insistentes em surgir nas fechaduras era eu o sábio de todo o edifício percebendo a beleza na dor para consolar a velhice dos mortos era eu o síndico de toda a rua mandando Deus se entender com o Diabo na luta cotidiana pela gangorra do recreio era eu o jardineiro de todo o bairro regando com os olhos as pétalas de cada rosa e o delírio de cada febre que eu cultivava era eu o dono de toda a cidade permitindo que o Cristo descesse os braços e descansasse a obrigação de zelar pelo sonho alheio era eu o vigia de todo o país abrindo as asas sobre os telhados para a noite não parecer tão desoladora. Nas noites em que o sono não vinha com minhas patas de anjo eu já ensaiava cartas de amor ao mundo.
Ó minha mãe
seios de cactos
leite recolhido
como sobrevivi
a teu silêncio de pedra?
Nunca pedi bênção
à tua mão de trevas
Nunca pedi beijo
à tua boca de escárnio
Ó minha mãe
colo de espinhos
carinho sem memória
como renasci
de teu abandono de pedra?
Nunca pedi filiação
ao teu ventre amaldiçoado
Nunca pedi perdão
à tua sombra escusa
Ó minha mãe
pés de aço
caminho de ventos úmidos
como morrerei
em tua distância de pedra?
Nunca pedi revolta
à tua estagnação no tempo
Nunca chorei o necessário
porque nunca nada pedi
Ó minha mãe
jamais minha
espero-te rochedo de alguém
Já distantes de minha mãe, fomos eu, meu pai e meu irmão a um circo gloriosamente mambembe na Praça Onze. Mesmo sem eu saber distinguir se verde ou vermelha a fita do cabelo da bailarina, se cinza ou rosa a pele do elefante, ou mesmo saber diferenciar o preto da cartola do apresentador do azul escuro da roupa do trapezista, tudo era um sonho colorido e musical para um menino que nem se sabia daltônico. A vida parecia perfeita naquela manhã de domingo em que meu pai perguntou: preferem ir à missa ou ao circo? E não sentir qualquer espécie de culpa pela escolha feita fez com que a vida realmente parecesse perfeita naquela manhã de domingo
Até o exímio ciclista, ao fazer um movimento ousado, perder o controle. Bicicleta no chão, silêncio constrangedor na plateia e o desespero de querer que aquilo não tivesse acontecido. Então a vida não seria tão perfeita assim naquela manhã de domingo? Ninguém sabia o que fazer. Quer dizer, ninguém não, meu pai sabia.
Levantou-se da poltrona e começou a aplaudir, com exagerado entusiasmo, o artista, e com palavras de ordem a serem seguidas: bravo, bravo, bravo!, obrigando a todos nós, reles e surpresos espectadores, a acompanhar com
timidez tal gesto nobre, capaz de provar que a vida poderia sim ser perfeita naquela manhã de domingo. Sei que o amor por meu pai já existia antes de eu nascer, mas a minha admiração por ele nasceu ali, naquele instante, ao constatar seu secreto respeito pela arte e sua pública paixão pela vida.
Em silêncio, o ciclista sorriu-lhe agradecido: pegou a bicicleta do chão, apontou-a na direção de meu pai como um troféu a ser compartilhado e terminou o número. Eu, também em profundo silêncio, apenas agradeci a sorte de ser seu filho: peguei na sua mão ainda encharcada de aplausos e nunca mais tive coragem de soltar.