BANHO DE MAR EM ICARAÍ

Janeiro sempre me obrigou a sonhar. Era a chance de vencer a minha melancolia e ter a sensação de que a esperança era o melhor caminho para a alegria. Era também o tempo de Hollyday on Ice, de férias na casa da madrinha e de praia – eu não era assim tão fã de praia, mas a cada janeiro acabava conhecendo uma diferente por conta da paixão de meu pai pelo mar. De conhecer o diferente eu era muito fã.

Lembro que, sem saber que para lá em breve nos mudaríamos, meu pai levou a mim e a meu irmão à praia de Icaraí. Eu não tinha quase nenhuma informação sobre Niterói, muito menos sobre Icaraí, que deveria ser vizinha de uma tal Ingá e de uma determinada Itaipu. A única conexão que eu podia fazer com todos aqueles nomes é que pareciam formar uma terra roubada de índios. E fiquei sabendo também, durante a discussão de meu pai com minha avó, que a praia de Icaraí não era aconselhável para “banho de mar”. Quanto mais para crianças. Mas só o fato de não ser aconselhável para banho de mar fez de Icaraí um lugar digno de ser conhecido e do qual, provavelmente, eu me tornaria fã. 

Enquanto atravessávamos a baía de Guanabara, numa barcaça para carros – a ponte Rio-Niterói ainda era sonho distante -, meu pai começou a falar que Icaraí era uma praia muito bonita, muito calma, que a gente ia gostar muito. Ele adorava. O “ele adorava” era o seu pedido, elegante, de aderência. Não havia como recusar um pedido de meu pai. Além do mais, Icaraí não era aconselhável para banho de mar e a curiosidade de descobrir o porquê já carimbara o meu passaporte, de livre e espontânea vontade, para a pátria de um senhor chamado Araribóia. Niterói deveria mesmo ser um paraíso invadido pelo homem branco.

Icaraí era realmente bonita, meu pai tinha razão, e suas águas intrigantemente paradas, mais parecendo uma lagoa. Muito diferente das ressacas do Leblon, do charme de Copacabana e do deserto da Barra da Tijuca, Icaraí tinha lá o seu encanto sereno, mas misterioso. “A gente pode mergulhar?”. Mais  do que sua beleza, o que me interessava era descobrir os segredos de uma praia não aconselhável para banho de mar. “Pode sim, esqueçam o que a avó de vocês falou”.

Antes do primeiro mergulho, a aproximação com o mar e a constatação de um cheiro que me lembrava iodo, criticado pelos banhistas ao lado, que culpavam o prefeito por nada cuidar da praia. Mas eu gostei tanto daquele cheiro de remédio ou planta, não sabia definir, algo que me dava vontade de esfregar na pele. Fiquei ali, alisando meu corpo com aquela água amarronzada, como que participando de um ritual de cura antes de mergulhar. Eu ouvira na TV que banho de mar era excelente para a saúde. Eu tinha algumas dores para sarar e achei que as águas de Icaraí ajudariam. Seria esse o seu segredo?

Mergulhei e, para não perder tempo, abri logo os olhos, vendo quase nada. Era tudo escuro, denso, percebia mais movimentos que corpos. Era esse o seu segredo. Nas águas de Icaraí, ainda moravam os índios sobreviventes do massacre dos homens brancos: por conhecerem os deuses com certa intimidade, pediram o milagre de se tornarem a sombra dos peixes para de sua terra não saírem. Por isso nada se via com nitidez sob o turvo daquelas águas. Ao voltar do mergulho, sem querer meu pai confirmou a minha teoria: “Pena aqui não ser bom para a pesca. Seria ótimo voltar do trabalho e ficar pescando enquanto os meninos se divertem”. Fingi não ouvir o segredo de meu pai, confessado a uma amiga que, mais tarde, viria a ser minha madrasta, e guardei o segredo de Icaraí, nem a meu irmão contando sobre a descoberta.

Voltei para o Rio certo de que minha avó havia se equivocado. Icaraí era totalmente aconselhável para banho de mar, em especial para crianças inteligentes. E tinha tudo – mistérios, encantamentos e muitas histórias escondidas - para ser uma tentativa de porto feliz para a nova família que meu pai nos daria.   

 


2011